Antônio Noberto

Uma história de paixão por São Luís

Publicado no Jornal Pequeno no dia 13 de janeiro de 2018

Estamos de volta com este nosso trabalho de contar um pouco da vida de pessoas que fazem a história do nosso Maranhão. Acredito muito que devemos nos movimentar para conquistar o que desejamos e deixar que as coisas de Deus vão se encaixando neste processo. Não foi por acaso, mas, de muito procurar, encontrei o nosso primeiro perfil, desta nova série que é nada mais, nada menos, o turismólogo e historiador Antônio José Noberto da Silva. É um perfil onde escrevo sobre Antônio Noberto.

É muita ousadia da minha parte, escrever sobre um imortal, membro fundador da Academia Ludovicense de Letras (ALL), onde ocupa a cadeira número 1, eleito presidente com 90% dos votos.

Nasceu em Pentecoste, no Ceará, e quando fala da cidade, ele diz quantos km tem de distância até a capital, sua localização geográfica precisa, onde é a entrada, se é pela direita da estrada ou esquerda.

Durante o nosso bate-papo, esta forma de localizar um fato ou um lugar foi uma constante. Sua precisão para datas, nomes e localizações é surpreendente.

Noberto teve uma infância simples. Aos 5 anos já vendia tomate. Teve que lidar cedo com a morte do pai e graças às suas duas irmãs, dos seus nove irmãos, que já moravam no Maranhão, o estado ganhou de presente este cearense-ludovicense, com título de cidadão e tudo mais que tem direito.

Sempre estudou em escolas públicas, era um aluno do estilo normal, perto da capacidade que é hoje e sempre ficava entre os 10 da classe. Hoje, sem medo de errar, fica fácil entre os primeiros de qualquer lugar.

Apesar de ter que trabalhar muito cedo, o que muitas vezes faz com que uma criança amadureça muito rápido, ele ainda lembra com carinho das suas brincadeiras de rua: patinete de rolimã e de pegar uma lata, colocar areia, fazer dois furos, amarrar um barbante e puxar como se fosse um carrinho, conhecido como rodo.

No atual momento do país, nem este tipo de brinquedo as crianças têm, pois elas estão tentando é sobreviver. Só para você entender. Cerca de 50 milhões de brasileiros vivem na linha da pobreza, o equivalente a 25,4% da população. Os dados foram divulgados no final de dezembro de 2017, no Rio de Janeiro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e fazem parte da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais 2017 – SIS 2017.

Noberto aproveita este momento que falo da pobreza e traça uma relação da nossa colonização e o momento que vivemos. Ela não nos ofereceu muito e tudo se torna caro, não só financeiramente, mas em vários aspectos, como na educação.

Cita o exemplo da Argentina colonizada pelos espanhóis, com um IDH 0,80, que mede a qualidade da saúde, educação, longevidade e renda. Eles têm universidade desde 1500 e a nossa primeira seria de 1901 mais ou menos.

Neste ponto ficou bem claro, para mim, esta posição dele em relação à nossa colonização e como poderia ter sido melhor. Defende de forma bem clara e embasada que, se tivéssemos sido colonizados pelos franceses, seria melhor. O bom é que, mesmo com este posicionamento, não age com uma visão de militante radical de achar que o seu pensamento é melhor, certo ou superior ao outro.

Procura abrir sempre um canal de discursão para o contraditório e isso faz de Antônio Noberto uma pessoa boa para conversar e debater ideias.

Ao participar de um debate de alto nível sobre a fundação de São Luís com a historiadora professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, mostra o que disse acima. Tiveram momentos eletrizantes, mas, ao final, o conhecimento trocado entre eles foi de grande importância e o grande vencedor foi o público presente.

Ouvir o mestre Antônio Noberto falar é algo encantador, cada fala sobre a história do Brasil, do Maranhão e de São Luís, sobre os séculos XVIII, XIX, XX e XXI, é um verdadeiro deleite. Ele tem uma facilidade de relacionar acontecimentos passados com os atuais de forma impressionante, levando o ouvinte a viajar em pensamentos e se ver nos locais dos quais Noberto falou.

Resolvo perguntar qual o seu primeiro livro e autor, e ele responde Júlio Verne, um francês, como não poderia deixar de ser, e a “Viagem ao Centro da Terra”.

Júlio Verne escreveu obras de aventura e ficção científica que influenciaram gerações.

O que Noberto faz hoje, com o seu saber, e sua forma de expressar, é o que Júlio Verne fez nos seus livros: levar-nos a imaginação de como foi, como poderia ser e como é nos dias de hoje.

Não tem ficção, pois ele usa a ciência, fruto de muita pesquisa, e passa os seus conhecimentos de uma forma que motiva a imaginação das pessoas e aguça a curiosidade delas.

Ele consegue que formem a sua própria leitura sobre os acontecimentos e posicionamentos que Noberto apresenta com a liberdade de concordarem ou não.

Um intelectual como poucos que já entrevistei, consegue traduzir numa linguagem simples, sobre tantas informações importantes com valor histórico, de fácil entendimento e compreensão. Ele não intelectualiza a informação, simplifica-a sem torná-la simplória.

Quando perguntei se não morasse em São Luís, onde gostaria de morar, Antônio Noberto não fez média, do tipo: não consigo me ver morando em outra cidade. Diz que moraria na Serra da Ibiapaba em Viçosa, no Ceará, porém a paixão por São Luís é tão grande, que na cidade tem um pouco da história do Maranhão.

Os franceses antes de fundarem nossa capital, saíram de onde hoje é o bairro do São Francisco, em São Luís, e foram para Viçosa.

Antônio Noberto atualmente trabalha no Policia Rodoviária Federal (PRF) e quando acabo de escrever onde ele trabalha me vem à mente uma relação interessante: policial rodoviário, estrada, pessoas viajando, Júlio Verne, sonhar, imaginar, desbravar lugares que contam a nossa história, franceses em São Luís, ou seja, até como profissional rodoviário, com perdão do trocadilho, as estradas dele se cruzam sempre.

Na PRF, ele é responsável pelo setor de comunicação cuja principal função é lidar com jornalistas e parlamentares. Entre os profissionais do jornalismo, ele é uma unanimidade, pois todos gostam dele.

Sempre gentil e solícito, está pronto para passar as informações diariamente sobre tudo que acontece nas estradas federais e estaduais que cortam o Maranhão.

No grupo de Whatsapp de que participa, bem cedo já tem notícias, pois, para quem não sabe, ele acorda todos os dias às 5:30 da manhã e costuma dormir lá para meia noite, ou seja, o homem não para, só em sinal fechado para dar o exemplo.

Num momento da nossa entrevista, pergunto sobre algo que marcou muito sua vida nas rodovias e ele se emociona ao falar que foi um acidente aqui no Maranhão, onde uma família morreu dentro do veículo e uma criança de mais ou menos 4 anos, sentada na cadeirinha, morta com o pescoço quebrado.

Mas imediatamente contou outro caso engraçado, pois, para um homem com tamanha energia boa, ele não deixa a tristeza tomar conta durante muito tempo.

Foi de um motorista que chegou e pediu para que eles aplicassem uma multa qualquer. Ele perguntou o motivo deste condutor querer uma multa, já que não fez nada. E, de pronto, vem a resposta da figuraça: “É que ele tinha dito para a mulher que havia viajado e não viajou. A única prova seria uma multa na estrada”. É óbvio que ele não foi multado e deve ter tido um grande trabalho para convencer a esposa que fez a tal viagem.

Apesar de já saber alguma coisa sobre este projeto que o historiador tem, fico surpreendido ao conhecer mais detalhes. Ele é o idealizador do passeio turístico musicado no cemitério do Gavião, “Cemitour do Gavião”, que apresenta a história do Maranhão a partir das personalidades que estão enterradas no Gavião.

Eu não sei você nobre leitor e leitora, mas, eu tenho uma grande fascinação por cemitérios onde personalidades estão enterradas. E quando comento que amava visitar um dos mais importantes cemitérios do Rio de Janeiro e até mesmo do Brasil, o São João Batista, me surpreendo mais uma vez. Ele cita algumas personalidades que estão enterradas lá, diz que já visitou o cemitério e pasmem, também visitou mais de 23 Estados e outros países, pesquisando as personalidades que estão enterradas para seu livro sobre o turismo no cemitério. Genial a ideia.

Vou citar alguns túmulos e cemitérios visitados: São João Batista Santos Dumont, Clara Nunes, Carmem Miranda, o cemitério do Catumbi no Rio de Janeiro, Catulo da Paixão Cearense, Chiquinha Gonzaga. Na França, o cemitério Père-Lachaise, Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre, Alan Kardec e Chopin.

Independente de religião e apenas falando do lado espiritual, Noberto está no lugar certo, fazendo o que deve ser feito. Talvez um resgate seu dentro do resgate da história do Maranhão em especial de São Luís? Talvez, quem sabe?

O certo que este ser humano especial, culto, sem o pedantismo de muitos, comove e empolga a todos com sua fala. De família humilde, soube reverter esta situação e se transformar num homem que conta a história de São Luís e que passa a fazer parte também desta história que é e será contada por outros, dizendo que um dia existiu em São Luís, um cearense, pra lá de ludovicense que ousou contrapor a relação benéfica que poderia ser nossa Ilha do Amor se fosse colonizada pelos franceses em relação a que foi pelos portugueses.

Pode se dizer que lembra também a luta que a França teve quando resolveu fundar São Luís, criou a escola onde indiozinhos e francesinhos estudavam no mesmo banco. Não é isto que Antônio Noberto faz? Não é mostrar numa exposição, a França Equinocial e a importância dela para nossa capital, no Forte Santo Antônio, e dividi-la com todos independentes de raça e religião.

A grande diferença de Noberto e os franceses que lutaram em São Luís é que ele não perdeu a guerra, pelo contrário, a cada dia que conta uma história ele vai vencendo pequenas batalhas.

Um sonhador sim! Um realizador sim! Mas, acima de tudo, um apaixonado pela nossa história que está sempre acesa, como uma paixão deve ser, quente, vibrante, intensa, a paixão de um modo geral tem tempo de validade, mas a paixão de Noberto por São Luís não vai acabar nunca.

Obrigado ao cearense Antônio Noberto é o que os ludovicenses deveriam dizer sempre. E obrigado pela honra e ousadia de escrever sobre você.

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É que ele tinha dito para a mulher que havia viajado e não viajou. A única prova seria uma multa na estrada

Antônio Noberto