BETTO PEREIRA

levando a sua verdade
pra quem quiser receber

"Quero que você me leve Pro espaço reggae, comece a dançar Toque de amor ao som da tribo de jah”

Iniciando com esses versos da música Toque de Amor, quero levar você para um espaço especial da história desse homem das artes: músico, instrumentista, cantor, artista plástico e que consegue se manter levando a sua essência, sua arte e, acima de tudo, essa sua verdade para todos. Com um o toque de amor no ritmo de muita verdade. Escrever sobre Betto Pereira é muito gratificante para mim. Quando cheguei a São Luís, a música Toque de Amor foi minha trilha sonora e de repente, de fã, que assistia ao seu ídolo nos vários recantos de São Luís, hoje, escrevo um pouco sobre ele. Sem falar que é praticamente a primeira vez que converso com Betto.

Ah, é bom avisar. Esse texto não segue em nenhum momento uma linha cronológica e sim uma linha inspiratória, onde os acontecimentos aparecem no momento que escrevo.

E por falar em Betto com dois tês, não teve nada a ver com numerologia, foi pura inspiração do artista, porém, um dia ao receber no seu atelier um numerólogo, que comentou sobre o motivo do Betto com dois tês, resolveu fazer uns cálculos e no final disse que estava certo e foi muito bom colocar Betto Pereira com dois tês, artista é isso, cria e nem sabe porque criou. Arte não se explica, se entende como os olhos de quem vê.

Nosso papo ou resenha que virou moda, foi via Zoom, ele entende pouco de tecnologia e eu menos ainda, mas no final deu certo.

Alberto Henrique Pereira, o nosso Betto Pereira, vem de família simples, criado pelo seu Henrique funcionário do antigo INPS (hoje INNS) e pela dona Elza, os dois já falecidos, porém presentes na vida de Betto, na formação moral e com o DNA musical do pai, que tocava violão e era um mestre como contador de piada.

Betto cedo foi morar em Brasília, quem diria, na capital no Brasil e no ano de 1964, pois seu pai como servidor público foi transferido. O menino Beto, ainda com um t, nem imaginava que estava entrando no meio do furacão que seria o início da ditadura militar. Período esse que causou tanta dor para nós brasileiros. Apesar de que hoje uma minoria que vive numa bolha, tenta justificar que não houve ditadura. Talvez por gostar de terceirizar seus erros.

Mas voltemos ao Betto que retornou para nossa Ilha do Amor, adoro chamar de Ilha do Amor, para morar no bairro Curupira, atrás do Costa Rodrigues, não sei se entendi errado ou seria Rua Curupira, não sei. Porém, foi lá que começou a surgir o músico Betto, já assumi o Betto com dois tês que roubava o violão do irmão e já era um músico famoso na cidade, participante de banda. O irmão que brigava muito com Betto, pois ao mexer no instrumento tirava toda a formatação musical que o irmão gostava de usar.

Ah, preciso retomar ao seu período em Brasília, mas retomarei a vida do adolescente aqui na nossa São Luís. Menino pobre, de vida simples, de poucos brinquedos, conseguiu junto com o irmão uma bicicleta, mas não era uma bicicleta, era a carcaça do que fora um dia uma bicicleta, porém isso não abalou a vida de Betto.

Começaram a montar essa bicicleta. Um dia comprava a roda, semanas depois outra roda, pedais, aros, banco (antigamente era selin) e, no fim, os “engenheiros” ciclistas terminaram o veículo de duas rodas passeando pela Asa Norte.

Como muita alegria ele me contou de como foi divertido, ainda criança, poder pedalar nas ruas de Brasília, conhecendo lugares, cantos e recantos, como um menino passarinho com vontade de voar, como diria Luís Vieira.

Apesar da nossa distância, ele em Petrópolis e eu em São Luís, através da plataforma Zoom, eu sentia a energia e alegria que ele me contava essa sua relação com a bicicleta.

O nome da sua exposição de 2019 foi as Bikes de Betto lançada no Espaço Betto Pereira. Em 2014, foi convidado para fazer a exposição “Pedalando Cores” no Museu nacional de Belas Artes, com a curadoria de Carlos Dimuro, que é um dos maiores curadores da arte plástica do Brasil. Explicar a criação tentando definir de onde vem é impossível. A bicicleta de Beto virou as Bikes do Betto.

Iberê Camargo tem uma frase que define bem essa relação do artista plástico Betto com sua bicicleta:

“A arte é intemporal, embora guarde a fisionomia de cada época”.

E o bairro da Currupira? Vamos retomar

Ele estudou nas escolas Ateneu, Rubem Almeida, Escola Modelo, Zoé Cerveira e jurou de pé junto que era um bom aluno, comentou que às vezes pulava o muro do Ateneu pra jogar bola, mas que o encontro com a música, com certeza, deu mais certo.

Seu primeiro emprego foi como continuo na Febem, antiga Fundação do Bem Estar do Menor, pois casou cedo e por isso, precisava trabalhar.

Em seguida, foi promovido a datilógrafo (caso você não saiba que profissão é essa, fique sabendo que naquela época era muito importante saber usar uma máquina de escrever, caso não saiba também o que é máquina de escrever, dá um google que entenderá, risos).

Cedo um jovem Betto, ainda na adolescência teve sua primeira experiência num cabaré. Calma aí, como músico. Ele tocava no sugestivo nome – Os Irmãos Brothers – que, entre outros lugares, tocava em cabaré.

É bom citar que ele convivia nos lugares onde nada mais, nada menos, circulavam Ferreira Gular, Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi, Alcione, entre outros notáveis expoentes da nossa literatura e da música brasileira.

Tentar colocar um marco inicial de quando o nosso entrevistado iniciou na música é cometer uma injustiça, pois por ter um pai tocador de violão, com certeza, no ventre da mãe ele já sentia os acordes do violão do seu Henrique.

E por falar de pai passando arte para o filho, Betto tem 5 filhos, Ana Camila de 40 anos que é fotógrafa, Arthur de 34 anos que também é fotógrafo, Barbara de 32 anos que é Bacharel em Arquitetura, Débora de 24 anos e também fotógrafa e Lara que, aos 17 anos, é artista plástica.

Quando fala a idades dos filhos dá uma boa gargalhada e diz que o tempo passou e que está ficando velho. Não é você quem está velho, são eles é que estão ficando velhos (boas risadas).

Ele tem também um grande amor da sua vida, ouso dizer que ultrapassa o amor pelas artes, sua mulher Rose com quem tem uma relação de mais de 20 anos. É no “colo” da Rose e nos abraços dos filhos que ele encontra a tranquilidade necessária para criar. E até fez uma música pra ela. Inspiração divina e segue um trecho.

“E desse amor lilás
Agora assina
Minha obra prima
Nem Renoir nem Monet
Meu bem
Minha Monalisa
Nem Rodin nem Dali
Minha inspiração divina”

Viver de arte nesse Brasil, da Cultura como um todo é muito difícil, pois não é algo que vem de berço valorizar. Quem nunca ouviu alguém falar que “jogar tinta num quadro eu também sei fazer”.

Conheço pessoas que gastam fortunas na compra e reforma de um apartamento, mas não tem quadros de pintores maranhenses importantes. Pais que levam seus filhos a Disney, nada contra, mas nunca levaram um filho a um museu. Viver de Cultura nesse país não é fácil.

Por isso foram incontáveis os nãos que Betto recebeu na vida, mas uma coisa que me chamou a atenção é que, em nenhum momento da nossa conversa, ele se lamentou, vitimizou, mostrou rancor ou falou mal de alguém. Na vida de Betto não tem retrovisor pra se lamentar do passado, tem espelhos laterais, pra olhar quando precisa mudar a rota.

Depois de uma carreira consolidada como músico, ele foi atender a inspiração que pulsava dentro de si, que é a pintura. Não foi por achar que o ciclo como músico acabou e precisava tentar outra coisa ou mesmo se reinventar, foi a arte batendo firme no seu coração, pedindo passagem para que ele, como instrumento, deixasse ela fluir.

Muitas pessoas criticaram, julgaram, não acreditaram nesse seu talento que pedia passagem. Muitos nãos e muitas chacotas (essas ditas às escondidas, pois os covardes só se expressam às escondidas), foram poucos que o apoiaram e acreditaram, porém como diz um dos versos da música Epitáfio.

“O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”

O acaso protegeu. Nosso artista teve um problema de vesícula e foi obrigado a fazer uma operação, ele confessou que é muito medroso em ir a hospital e imaginar fazer uma cirurgia. O médico orientou que ele ficasse pelo menos 15 dias em repouso, pós-operatório, porém o medo (ou o acaso) fez com que ele ficasse uns 40 dias.

Betto nesse tempo pintou uns 48 quadros, que ocupava o corredor inteiro de sua casa. A vesícula foi, mas a pintura iniciou (risos).

Dentro da sua simplicidade, do reconhecimento de ser um instrumento, sem a vaidade de achar que é o cara, levava suas telas para emoldurar na loja do Beto Lima e ele nem imaginava, que podia vender uma pintura sem precisar moldura, e detalhe: não assinava!

Beto Lima olhava a tela e ficava apaixonado querendo saber quem era esse pintor e o nosso artista falava que as telas eram de um amigo. Um belo dia, Betto resolveu assinar e o Beto Lima brincou dizendo que estava sendo enganado o tempo todo. Poxa, eu, Luiz, que tantos quadros emoldurei na loja no Beto Lima, não tive a chance de ver um de Betto daquele período. Mas e agora, o que fazer?

Como diz esses versos de Gilberto Gil o cantor e compositor que mais Betto gosta.

“Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá”

E a fé não ‘faiô’ para Betto. Essa fé que é um sentimento total de crença em algo ou alguém, ainda que não haja nenhum tipo de evidência que comprove a veracidade da proposição em causa. Essa fé sempre existiu em Betto.

Um dia estava ele no Reviver vendo algumas coisas e, de repente, bateu aquela vontade de ir a uma papelaria. Nela estava um amigo e que o apresentou Carlos Dimuro, que como citei no início do texto, é um dos maiores curadores do Brasil e muito importante no exterior.

O amigo falou quem era Betto, artista, compositor, cantor, com mais de 40 anos de trabalho e também artista plástico. Fez o acaso ou a fé que Betto estivesse com um livreto de suas obras impressas.

O experiente curador pediu para olhar e ficou encantado com o trabalho. Queria ver as obras pessoalmente e Betto explicou onde elas estariam expostas.

Betto é um otimista, porém dessa vez ele deu uma diminuída no otimismo, ou também pela experiência de tantos ‘nãos’ e ficou imaginando o que um curador como ele iria visitá-lo, numa galeria e num Shopping não muito conhecido. Talvez, a fé tenha balançado um pouco. Naquele momento Betto levemente pode ter perdido a fé, mas Gilberto Gil é bem claro nesses versos:

“Mesmo a quem não tem fé
A fé costuma acompanhar
Oh! Oh!
Pelo sim, pelo não”

Pelo sim, pelo não, a fé acompanhou e o Carlos Dimuro apareceu. Ficou encantado com o trabalho, conversaram bastante e, ao final, deixou um cartão e fez um convite para que Betto o procurasse no Rio de Janeiro, pois existiria muitas chances para ele lá. E como Gil escreveu:

“O melhor lugar do mundo
É aqui e agora
O melhor lugar do mundo
É aqui e agora”

E o agora de Betto, e o melhor lugar do mundo, era no Rio de Janeiro. E foi, com a cara, coragem, com fé, com sua verdade e deixando o acaso o levar. Já foram mais de 20 exposições e uma delas no Museu Nacional de Belas Artes. Vou citar algumas personalidades, pois são várias que têm uma obra de Betto Pereira no seu acervo. Fátima Bernardes, Ana Maria Braga, Fernanda Montenegro, as saudosas Marília Pera e Bibi Ferreira e muito mais.

Vocês que estão lendo devem estar me perguntando e a história da música dele? Teria que ser um livro a parte, mas vou tentar apresentar algumas referências que marcaram seus 40 anos de história.

Aos 15 anos, já se apresentava em festas e bares, participou de grupo de chorinho, criou um instrumento chamado guitavago (uma espécie de guitarra com cavaco), ganhou o samba enredo de 1980 da Flor do Samba e recebeu outros diversos prêmios. Colocou 4 mil e 500 pessoas no antigo Espaço Cultural que era utilizado só por artista famosos vindos de fora.

Tem influência musical no bumba meu boi, tambor de crioula, reggae, chorinho, Paulinho da Viola, Beatles, Elton John e Gilberto Gil com teve a honra de dividir o palco.

Cantou em cabaré, cantou no Circo Voador, na Fundição Progresso, ou seja, sempre foi onde o publico estava.

Tocou, cantou e fez musica com tanta gente e se faltar alguma a culpa é minha e não dele. Alcione, César Teixeira, Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Godão, participou do Grupo Rabo de Vaca, com Josias, Zezé Alves, Manoel Pacifico, Jeca, Tião Carvalho, Baixinho, Mauro Travincas, Omar Cutrim, Chico Maranhão, Erasmo Dibel, Beto do Cavaco, Carlinhos Veloz, Flávia Bitencourt. Acompanhou como instrumentista Dona Ivone Lara, Moreira da Silva, Xangô da Mangueira, Cristina Buarque, Miucha. E são tantos que peço perdão por não conseguir escrever, mas ele é eternamente grato.

É muito difícil, pelo menos para mim, escrever sobre um ídolo, alguém que com sua arte, marcou a minha chegada nesta cidade há 30 anos. Betto é simples, humano, amigo, brincalhão, mas sério quando precisa ser, principalmente no lado profissional. Bom pai, esposo, amoroso e cuidadoso. Dentre muitos amigos que citou, um me chamou a atenção, Mauro Travincas que Betto diz ser muito feliz de tê-lo como amigo.

O que deixa Betto triste, além das mazelas que vive o Brasil, é não ter tinta pra pintar, é o puro amor pela arte. Betto é como um trecho do samba-enredo ‘Um sonho, sonhado’ do Marinho da Vila.

“Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz”

Não existe arrependimento na vida de Betto, é ganhar e ganhar, perder é questão de interpretação. Até poderia ter seguido outro caminho de sucesso, mas é grato a este caminho que construiu com muito esforço e com a ajuda de Deus.

Betto é um ser livre, que através da sua arte leva a sua verdade, verdade essa que é divida com todos, mesmo com aqueles que ainda não conseguem ter a sua verdade, mas que, com a arte de Betto, seja na pintura ou na música, conseguem ter inspiração pra construir a sua própria verdade. O seu próprio caminho de luz. O seu sonho sonhado.

Muito emocionado, termino agradecendo você, Betto, por essa oportunidade, e escrevendo sobre você, descobri a minha verdade que é escrever.

Umas pinceladas com Betto Pereira

Nome – Alberto Henrique Pereira.
Nome artístico – Betto Pereira.
Profissão – Músico, cantor, compositor, artista plástico.
Infância – Ele e mais 3 irmãos, infância simples.
Signo – Leão.
Acredita em que? Em Deus.
Cidade onde nasceu? São Luís.
Casado? Casado com Rose.
Filhos? 5 filhos.
Onde foi criado? Morou uns anos com os pais em Brasília e depois retornou a São Luís.
Família – Meu tudo, porto seguro, minha força e inspiração.
O que gostava de fazer para se divertir na infância? Jogar bola, mas cedo já queria a música, até por ser autodidata, a música sempre falou mais alto.
Um acontecimento marcante na sua infância – Andar de bicicleta na Asa Norte em Brasília.
Pai – Seu Henrique que tocava violão, marceneiro, eletricista e que gostava de ouvir boa música.
Mãe – E dona Elza mulher que sempre deu muito amor.
Como foi sua adolescência?  Tocando violão, principalmente o que eu roubava do meu irmão, que ficava zangado, para tocar.
Estilo de música que ouvia na época – De tudo um pouco, toadas, músicas de Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Beatles, Elton John e muita gente boa.
Amigos importantes na adolescência – Foram tantos, mas tenho um grande carinho por Mauro Travincas.
Onde estudava?  Ateneu, Rubem Almeida, Escola Modelo e Zoé Cerveira.
Início da vida adulta – Fui trabalhar cedo, pois casei. Trabalhei na Febem, Maratur, onde fiz muitas amizades importantes pra minha carreira.
O que gostava de fazer?  Música.
A Cultura na sua vida – Passa pela minha história de vida. Da força dos tambores da música do Maranhão.
Um sonho – Viver do que faço.
Um amor – Rose, minha família.
Uma saudade – Dos meus pais;
A pintura na sua vida – É mais uma forma de expressar a minha verdade.
O que marcou sua carreira profissional? Uma temporada de 60 shows pelo Maranhão com minha banda.
Sua primeira música? Amor de Canela, parceria com Manoel Pacífico e a gravação de “Massaroca”, meu primeiro LP.
Seu primeiro show? No bar Cabeça de Peixe na Camboa.
Seu primeiro quadro? Pintei em São Paulo, quando morava ainda no Morro do Querosene, para descolar uma graninha para o rango.
Um grande cantor? Vários, Gilberto Gil é um deles.
Um grande pintor? Muitos, Cosme Martins, Péricles Rocha, Beto Lima, Mondego, Jesus Santos e outros.
Se voltasse no tempo mudaria alguma coisa? Não olho para trás, não me arrependo de nada.
O que é o passado? A minha história.
O presente? É hoje, fazendo o que gosto de fazer.
Como você acha que as pessoas veem você? Simples, sem frescura, muito profissional, corajoso e sério, apesar de ser brincalhão também.
Como você vê o futuro? Menta sã, cabeça boa.
O que mais deixa te triste? Não ter tinta pra pintar.
Quem espera sempre alcança? Comigo não tem essa, vou à luta.
Um país fora o Brasil? França, Nova York.
Uma cidade fora São Luís? Brasília, Betto mora no Rio de Janeiro, na bela cidade de Petrópolis.
Quem é Betto Pereira? Um homem trabalhador e que leva a sua verdade através da arte.

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“O melhor lugar do mundo
É aqui e agora
O melhor lugar do mundo
É aqui e agora”

Betto Pereira