CÉLIA ROSSETTI

Da necessidade até a
paixão pela gastronomia

Saí da entrevista com a Célia e não via a hora de chegar em casa e escrever meu texto. Logo no primeiro contato telefônico (só pra matar a saudade quando se falava contato telefônico), pois foi mesmo pelo Whatsapp, percebi que minha escolha foi acertada.

Célia foi extremamente receptiva, pois, mesmo sem me conhecer, aceitou contar um pouco da sua rica história pra mim. Ela começou a mostrar a receita do sucesso (com o perdão do trocadilho) que eu iria descobrir no final, quando perguntei seu endereço: “moro na Ponta da Areia”. Não seria um problema, mas ela mora na famosa Península e, em nenhum momento, encheu a boca pra falar isso. Comecei a perceber a primeira característica da minha entrevistada. Simplicidade.

Dentre muitas entrevistas e perfis que fiz na vida, aprendi que pessoas que adquiriram sua independência financeira com muito trabalho, não ostentam o que tem, são gratos e isso percebi na Célia e sua família. São gratos por tudo que conseguiram, inclusive os insucessos que sempre existem na vida dos vencedores.

Apesar de ser um belo e grande apartamento, me senti a vontade conversando com ela, como se tivesse na casa simples que ela foi criada em Bacabal, sua terra natal, casa essa que Célia tem o orgulho de dizer que, quando sua vida melhorou, pôde reformar do jeito que a mãe sempre sonhou.

Por falar em mãe, dona Sabina, teria de fazer um capitulo a parte, pois é a grande paixão da vida dela. Uma mãe que a escolheu como filha, pois, na verdade, ela era sua avó e ensinou tudo de importante que se deve ensinar para uma filha, para que se torne uma mulher forte e vencedora.

Deu certo, dona Sabina, que a criou como quebradeira de coco e, naquela época, já emponderava a filha ao falar que uma mulher precisa de trabalho. Interessante, ela poderia falar de ter um esposo, mas não; de ter um trabalho.

Dona Sabina que gostaria de ter conhecido, onde quer que a senhora esteja, seus ensinamentos fizeram Célia uma vencedora. Mulher, preta, que não foi criada pela mãe biológica, sem o pai próximo, criada num ambiente extremamente simples e que lutou muito pra vencer preconceitos sempre de cabeça erguida.

Célia nasceu em Bacabal, teve uma infância tranquila e muito cheia de religiosidade. As festas que participava eram a do Divino, quermesse e todas as festividades que a Igreja Católica apresenta. E ainda hoje é a religião que pratica.

O que move essa mulher é a paixão, isso mesmo, em tudo que falava percebia que Célia tem como ingrediente principal da sua via a paixão.

Eternamente apaixonada pela mãe, casada com Adolfo Rossetti, um italiano extremamente educado, uma paixão de mais de 30 anos de casado. Adolfo que deixou seu país apaixonado pela Célia e veio morar em São Luís.

Paixão pelas filhas, Sara e Sofia, que a enchem de orgulho, por sinal extremamente educadas. Sara é o braço direito da mãe na empresa e ela torce em silêncio que a Sofia seja o braço esquerdo dela um dia, porém respeita e apoiará toda a decisão tomada por ela. Respeito ao que os outros pensam é outra característica da Célia.

Paixão pela gastronomia, pela profissão, por tudo o que faz. Comida sem paixão, é uma comida sem alma, é assim que Célia sente. Não tem como entregar um alimento se você não for dentro dele e isso ela sabe fazer muito bem.

Quando pergunto qual a profissão da moradora da Península, ou melhor, da Ponta da Areia, ela respondeu no ato “cozinheira profissional”. É óbvio que uma mulher que construiu seu sucesso com muito esforço não iria renegar sua origem. Na boa, ela não podia encher o peito e falar que é uma “chef”.

Ela, em nenhum momento da nossa conversa, se nomeou como empresária. Tinha até uma pergunta sobre quem ela achava ser um grande empresário, percebi que era melhor perguntar quem foi sua inspiração na cozinha. Não pensou duas vezes: Lenoca e dona Dica. É ou não é uma pessoa que é apaixonada pela sua origem? Não podia citar grandes chefes do mundo?

Estava curioso em saber quando surgiu a Célia cozinheira que faz sucesso hoje. Como ela descobriu esse dom? E na lata respondeu. “Necessidade!” A necessidade de ter de pagar suas contas, no inicio de tudo, com seu marido e já perto de ter a primeira filha. Assim surgiu a cozinheira que seria no futuro uma grande empresária.

Ela teve a inspiração na mãe e na sogra. É a intersecção entre dona Sabina da cozinha de base do interior, com sua sogra dona Teresa, da cozinha de base da Itália. Deu essa mistura ítalo-brasileira maravilhosa. Sua mãe gostava de fazer a comida com as especiarias que ela mesma cultivava com produtos frescos para construir suas receitas e sempre com muita paixão.

Quando foi visitar sua sogra, percebeu que ela cozinhava do jeito da mãe. Fazendo aquele molho tradicional italiano com tomates frescos (deve ser uma delicia), privilegiava a compra na mercearia perto, com alimentos fresco e sempre com muita paixão.

Surgiu a equação certa: paixão como a mãe cozinhava + paixão como a sogra cozinhava = Célia cozinheira.

Mas tudo na vida tem um começo e o de Célia foi muito difícil. Recém-casada, morava no bairro da Areinha numa quitinete e cheia de conta pra pagar.

O que fazer? Surgiu a ideia de vender pastel folheado utilizando um fogão doméstico. Começou a produzir o que seriam os seus famosos pastéis que, na década de 80, fizeram a alegria de muita gente que frequentava o Centro da cidade. De repente você comeu e nem sabia que comia um pastel de quem seria uma das maiores banqueteiras do Maranhão.

Ela e o marido faziam juntos, colocava numa cesta, pegava o ônibus e lá ia ela vender nos bares e lanchonetes. Enquanto muitos se lamentam que não conseguem emprego, ela resolveu conseguir trabalho e com seus pastéis sua história iniciou pra valer. Um detalhe: na fase do pastel ela tem muita gratidão ao seu primeiro funcionário, o jovem Valdemir.

No período dos pastéis, ela teve sua primeira oportunidade que foi dada pelo Padre Paulo Sampaio da Igreja de Santo Antônio. O padre apresentou as pessoas mais influentes da cidade naquela época e uma delas, a quem Célia é muito grata, foi a dona Delci Nunes Freire, mulher do ex-governador do Maranhão, Nunes Freire, que experimentou seu pastel, mas se encantou também com o doce crostatinha de frutas que ela passou a vender, feitos pelo seu marido Adolfo. Dona Dilce disse que só havia comido um doce igual a esse na Europa e com isso iniciava a primeira rede de contatos da Célia.

Ela saiu do patamar da vendedora de pastel no Centro para vendedora de pastel e doces na grande sociedade ludovicense. Não é exagero, foi isso que aconteceu. A partir desse momento, começou a virada na vida dela e de seu esposo. Era o prenuncio do nascimento da Célia Banqueteira.

Uma segunda fase se iniciava e ela já perdeu a conta de quantas festas fez. Foram centenas de pessoas que de forma direta e indireta puderam aproveitar o sabor da sua cozinha e também muita geração de empregos.

Algumas forem privilegiadas no inicio em saborearem os primeiros pratos que ela fazia. Célia ia pra cozinha, fazia os pratos e essas pessoas comiam e davam o seu parecer. Eram os degustadores do sabor da Célia o que com certeza deve ter sido um trabalho prazeroso.

Nessa segunda fase, não quis citar nomes de pessoas que a apoiaram para não ser injusta, mas começou com uma grande senhora da sociedade que pediu para ela fazer uma comida pra ela, pois receberia alguns convidados e gostaria de servir um jantar. E sua rede de contatos começou a ampliar.

O grande teste da sua entrada de fato como uma banqueteira de grandes festas estava chegando. Aquele trabalho podia mudar a sua vida profissional, pois se desse certo as portas seriam abertas, mas em nenhum momento ela pensou que daria errado.
Na verdade, o que aconteceu foi o medo natural de quem é competente. Se Fernanda Montenegro diz que sente “medo” antes de encarar a plateia, os vencedores também sentem medo antes de apresentar um trabalho e que, ao final, receberá o aplauso da plateia.

Essa primeira grande festa foi o casamento da Rafaela Albuquerque (fico pensando se todos sabiam ser o primeiro evento dela). Uma festa de casamento de uma família tradicional e que levou aos salões a grande sociedade maranhense. Pressão total e não deve ter sido fácil o trabalho.

Algo que muita gente não deve saber e agora irá conhecer é que, no dia do casamento, após a festa, o bolo havia sumido. Você não leu errado. Num casamento o bolo é o mais importante da festa, é o símbolo da união e o grand finale do sucesso do evento e ele havia sumido depois de tudo. Escrevendo isso, me veio à mente o quanto de curiosidades não devem acontecer nos bastidores das festas.

Para Célia, o bom profissional dessa área é aquele que entrega o que o cliente pediu com algo mais. E ela entregou a festa de casamento da Rafaela. Todos gostaram e o que mais alegrou a nossa banqueteira foi receber um abraço de agradecimento do pai da noiva Roberto Albuquerque.

Pensando bem, fazer uma festa de casamento da filha, para um pai, é algo de maravilhoso e ter a confiança de deixar nas mãos de uma profissional e, no final, saber que tudo deu certo é algo extraordinário e Célia deu esse prazer a ele.

Essa mulher guerreira não para e posso cravar que a 3ª fase da Célia se inicia. Muitas das suas criações gastronômicas já usavam ingredientes que ela mesma plantava, mas numa escala menor, porém agora resolveu fazer essa atividade de forma maior.

Tem hoje, em Bacabal, sua plantação que já deu a 1ª safra de milho, ou seja, onde tem milho nas comidas da Rossetti é da sua própria plantação. Já tem também arroz plantado, além de toda as especiarias que são fundamentais para os pratos, salgados e doces ficarem perfeitos.

Essa cozinheira profissional, como ela se autodenomina, cá entre nós, é uma baita empreendedora. Ela, com a plantação, vem fechando toda a sua cadeia de produção. Raciocina comigo.

Planta os ingredientes que serão beneficiados e irão para seus produtos. Faz os produtos, vende nas suas lojas ou festas que realizada e recebe pelo resultado conseguido. Ela tem mais próximo de si o controle de qualidade de todas as fases. É ou não é uma empreendedora?

Percebi que um dos orgulhos que ela tem e deixa transparecer é saber que boa parte da sua família trabalha na empresa. Filha, marido no setor de sorvete – que é a paixão dele –, genro, noras, sobrinhos e como disse no início, sem pressionar, espera no íntimo que a segunda filha entre para esse projeto de empresa familiar.

Paixão é o que move essa mulher, apesar de contraditório, ela é bem conservadora, centrada e precisa se sentir segura, mas arriscando. O famoso risco calculado. Prudência hoje também é uma característica de Célia.
Em todo o momento da nossa conversa, a mãe sempre foi presente. É notório o seu de amor por essa mãe que a escolheu como filha. Sua mãe, apesar de já ter falecido aos 90 anos, é muito presente na sua vida. Sei que a cada realização pensa na mãe que pôde em vida presenciar o sucesso da filha. Nada na vida de Célia veio fácil, mas as dificuldades serviram para o seu crescimento e me fez lembrar uma frase de Nelson Mandela quando diz: “que nunca perde, ganha ou aprende com os acontecimentos”. Célia é assim!

Vendou pastel pra pagar suas contas, conheceu pessoas, iniciou na sua vida de banqueteira, faliu, tiveram profissionais que a decepcionaram, clientes que muitas vezes deixaram de pagar e com isso os problemas foram grandes, mas foram poucas as vezes que ela se queixou na nossa entrevista. Passou por preconceito de ser mulher, preta, casada com um estrangeiro, mas sofria algumas horas, enxugava às lágrimas, levantava a cabeça e seguia em frente.

Vou ousar em fazer a receita e que depois dos “ingredientes” misturados surge a Célia Rossetti

Uma pitada de simplicidade, com algumas gramas de muita fé, uma xicara cheia de responsabilidade, sem parar de mexer, coloca duas colheres de intuição, junto com a prudência, porém para a receita dar certo, precisa ter uma boa quantidade de paixão, pois sem ela a receita desanda.

Uma receita com Célia Rosseti

Nome – Célia Regina Vieira Sousa
Nome profissional – Célia Rossetti
Profissão – Cozinheira profissional
Signo – Áries
Acredita em que – Deus
Cidade onde nasceu – Bacabal – MA
Idade – 52 anos
Casada – Adolfo Rossetti
Filhos – Duas. Sara de 30 anos e Sofia de 17 anos
Pai – José Edilson
Mãe – Sabina Santos
Onde foi criada – Na cidade de Bacabal até os 17 anos e depois veio para São Luís
O que gostava de fazer pra se divertir na infância – Brincar na rua
Um acontecimento marcante na sua infância – As festividades religiosas, tambor de crioulas, entre outros
Amigos importantes na adolescência – Prefiro não falar um para não ser injusta.
Onde estudava – Colégio Nossa Senhora dos Anjos formada como Normalista
Início da vida adulta – Muito trabalho
Seu primeiro trabalho – Secretária de buffet
Quem deu sua primeira oportunidade – Padre Paulo Sampaio
Um trabalho que não esquece – 1 ª festa que foi o casamento da Rafaela Albuquerque
Quando descobriu que era isso que queria – A necessidade me fez descobrir
O que não pode faltar na sua cozinha de trabalho – Azeite
Um lema de trabalho – É preciso entregar aquilo que foi combinado com o cliente
Uma alegria no trabalho – Saber que toda a linha de produção está funcionando, pessoas criando e funcionários felizes.
O 1º negócio a gente nunca esquece – O pastel folheado
Sua maior realização profissional – Ter conseguido reformar a casa de minha mãe. Aquilo me fez perceber que venci.
Uma boa cozinheira é aquela que… – Que entrega, ama o que faz e não tem hora pra trabalhar.
Um projeto que marcou sua vida – Essa fase atual de começar a plantar em escala maior os produtos utilizados na Rossetti
Seu grande amor – a cozinha
Saudade de alguém – Mãe
O que faz nas horas livres – Cozinha
Voltaria no tempo pra… – Viajar com a mãe
Arrependimento – Talvez não ter ficado mais com minha mãe
Um livro – Bíblia e também de gastronomia
Um país? – Itália
Uma cidade – São Luís
O futuro – Fortalecer o agronegócio
O que nunca beberia – Conhaque
Uma comida – O fígado de tirinha mal passado da minha mãe
O que nunca comeria – Cobra, rá e comida crua
Se voltasse no tempo mudaria alguma coisa – Não
O que nunca esquece – Minha mãe
O que é o passado – Maravilhoso. É o que me trouxe aqui
O presente – Ver as minhas filhas assumindo os negócios
Como você acha que as pessoas veem você – Confiam em mim
O que mais deixa você triste – Quando alguma coisa na linha de produção não dá certo
Quem espera sempre alcança – Correndo atrás dos sonhos
Como você analisa a concorrência de um modo geral – boa, a concorrência estimula
Quem é Célia Rossetti – Uma mulher de fé que tem o propósito de transformar vidas.

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"Ela teve a inspiração na mãe e na sogra. É a intersecção entre dona Sabina da cozinha de base do interior, com sua sogra dona Teresa, da cozinha de base da Itália."

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