DONA NINA

A refeição nossa
de cada dia

Publicado no Jornal Pequeno no dia 06 de fevereiro de 2009

Que jogue o primeiro garfo quem nunca comeu na Dona Nina. Eu jogo garfo, faca, colher, prato e tudo mais, pois sempre fui e sou um assíduo frequentador deste restaurante que marcou a minha vida e ainda marca nestes 25 anos de existência no mercado de São Luís. E para começar vou fazer a primeira revelação que muitos não sabem, o verdadeiro nome da Dona Nina: Cosmina Aulisio Mantovani, filha de italianos, essa paulista nascida na cidade de Monteiro Lobato, fez de São Luís sua verdadeira terra natal.

Quem não conhece aquele famoso bife à parmegiana, sua torta de camarão, empadão de frango e aquela feijoada deliciosa? Se você não conhece e por acaso está lendo a matéria no domingo pela manhã, tem tempo de ir ao Restaurante da Dona Nina, no São Francisco, e escolher um destes pratos.

Mas para chegar ao ponto de abrir de domingo a domingo, Dona Nina tem uma história rica para contar e para ensinar àquele povo que adora carteira assinada e pensa que só assim poderá ter segurança na vida.

Filha de italianos e como uma boa dona-de-casa, nunca foi de ficar parada e junto com o marido montaram o seu primeiro negócio que foi um bar em São Paulo, no Bairro da Barra Funda. Em seguida, resolveram partir para uma padaria em Ourinhos, o que já seria o seu segundo negócio. Sempre como proprietária, o marido cuidava das finanças e ela da barriga dos clientes o que sempre foi o seu forte. Com o crescimento partiram para o terceiro projeto mais audacioso que foi um hotel e fez muito sucesso, porém, quis o destino que o casal decidisse viver separado, o que lá pelos anos 1950/60 já seria uma grande audácia para uma mulher. Dona Nina pode ter até se assustado, mas nunca se abalado. Partiu para mais um negócio e montou uma loja de doces, mas quem conhece um pouco o sangue do italiano e entende o lado maternal da italiana, sabe que os filhos falam muito mais ao coração, por isso um dos seus filhos, Demosthenes, tinha passado no concurso na UFMA – Universidade Federal do Maranhão – para ser professor no Curso de Educação Física e a filha, Kátia, em visita ao irmão José, decidiu fixar residência em São Luís e convidou a mãe para vir morar na cidade e não deu outra, lá veio a Dona Nina para Ilha do amor e ficou enamorada pelos encantos deste paraíso tropical e este amor passou a ser eterno.

Voltando à empreendedora Nina, por causa da minguada aposentadoria – ah, lembrei-me da aposentadoria da minha mãe – ela até poderia ficar em casa, pois tinha condições para isso, mas vai falar para uma filha de italiano para ficar em casa, ela não fica! Com o tino para os negócios, percebeu no bairro da Cohama que havia um Sacolão muito movimentado, pediu autorização e montou uma pequena barraca onde fazia, na hora, salgadinhos, o que virou um sucesso e surgiu o seu primeiro apelido: a senhora dos salgados. O sucesso foi grande e o preço baixo – sempre o grande segredo da Dona Nina – fazia as pessoas comprarem para revender. Ela chegava cedo e só voltava para casa quando tudo acabava.

Quem olha hoje pensa que ela começou com tudo pronto, pobre cara pálida que não sabe o que é lutar. Um cliente notou que ela ficava na parte da tarde no sol e indicou uma pessoa que tinha uma loja na cabeceira da Ponte do São Francisco e que ela poderia fazer negócio lá. Ela foi visitá-lo e a arrendou no ano de 1983 e ficou fornecendo refeições e salgadinhos até 1985. No ano de 1987, ela montou uma loja no Centro, na rua Godofredo Viana e, em seguida, comprou um ponto no São Francisco, onde hoje fica a sua sede e criou o seu negócio. Quando abriu sua empresa, ela não tinha nome, queria homenagear um santo – ela é católica –, mas um cliente, o Sr. Brandão, muito inteligente e abençoado por Deus, sugeriu que o nome do Restaurante fosse Dona Nina e o nome pegou. Hoje, a empresa é uma das maiores deste setor.

Alguns casos chamam a atenção neste tempo de existência. Uma vez, ela foi notificada por uma empresa, de forma até rude e, ao chegar, foi chamada a atenção pela qualidade da comida fornecida, com aquele jeito tranquilo de falar pediu a nota que deveria estar junto com as marmitas e foi neste momento que descobriu que uma outra pessoa estava usando o nome da sua empresa para fornecer quentinhas para os clientes. Outro ponto interessante é que, mesmo com o expediente fechado, Dona Nina tinha que ir para cozinha e salvar donas-de-casa que receberam visitas inesperadas e sem comida para oferecer tiveram nela o socorro.

Hoje, ela emprega de forma direta e indireta mais de 20 pessoas. No começo, ela acordava às 4 horas da manhã para sair comprando produtos, hoje são os fornecedores que batem na sua porta, seus clientes são variados e ela não faz discriminação, só exige o respeito. Com Dona Nina muitos hábitos foram mudados, a tradição de se fazer almoço em casa foi quebrada. Com a comida do estilo caseira como é feita até hoje, muitas delas com sua supervisão, é muito comum as pessoas irem buscar o prato principal que será servido em casa. No final de ano, ela não consegue dar vazão a quantidade de pedidos para Ceia de Natal.

Dona Nina não para. Quando fui entrevistá-la, meu relógio já marcava 15 horas e ela estava sentada próxima ao telefone, esperando ligações. Com 87 anos, além dos 6 filhos, ela tem 10 netos e 2 bisnetos, sem falar na sua família de funcionários, sendo que muitos se aposentaram trabalhando com ela e continuam voltando para trabalhar quando necessário. Toda São Luís de uma forma ou de outra – alguns mais, alguns menos – já comeram das refeições da Dona Nina, seja em casa ou no trabalho, pois ela fornece para muitos bairros e empresas.

Quis o destino, mas acho que foi Deus mesmo, que ela não desse o nome do Restaurante de um Santo, pois se a gula é um pecado, seria constrangedor ter que pagar todo dia a conta ao Santo pelo pecado cometido. Obrigado, seu Brandão – o seu com s minúsculo pois não é santo por ter batizado o Restaurante de Dona Nina, os bons pecadores agradecem.

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