JOSILDA BOGÉA ANCHIETA

In memoriam: essa brava
gente brasileira

Publicado em 16 de janeiro de 2011

Eu adorava fazer esse quadro, mas tive que falar com ela que estava ficando pesado financeiramente para eu custear 4 páginas de jornais, e tive que tirar o Quadro Foto Digital. Quis o destino que eu tivesse que fazer um especial logo com ela, assim vou poder fazer algo que gosto tanto e sobre ela que tanto gostava.

Entrei no Jornal Pequeno depois que fui conversar com Lourival, mas quem me aturou e me manteve até hoje foi dona Josilda. Eu não sou fácil, sou extremamente desorganizado e tenho a tendência de acumular muitas coisas sobre mim e por isso acabo falhando em algumas delas.

Agora imagine eu deste jeito lidar com dona Josilda? Logo ela, extremamente exigente e minuciosa. Eu vivia levando bronca e quando ela ligava para mim, eu ficava pensando: – qual tinha sido a coisa errada que fiz? Ela era assim, não dava moleza mesmo.

Durante o tempo que trabalhei com ela, atrasei pagamento, fiz contrato com empresas que não pagaram, atrasei a entrega do meu material para rodar, mas ela sempre dava um jeito e me aceitava, apesar de no íntimo eu saber que ela deveria estar de saco cheio de mim. Mas nunca faria algo para me prejudicar e não o fez mesmo; sempre me deu uma nova chance. Ela era assim: dava bronca, mas sempre aceitava as pessoas com seu jeito.

Algo que me espantava, ela fazia qualquer problema que eu tivesse no momento passar a ser menor. Dona Josilda estava em São Paulo e ficava preocupada com o setor operacional da empresa e de uma simples coluna como a minha.

Espantava-me também saber que logo ao chegar em São Luís, depois de uma série de exames e tratamentos que fazia em São Paulo, quando menos se esperava, lá estava ela sentada à sua mesa pronta para trabalhar. Ela era assim, gostava de trabalhar.

Uma vez eu falei para ela: – A senhora só liga para me cobrar, mas eu vou ser bem sincero, hoje gosto quando o celular toca, pois fico feliz de saber que a senhora já está de volta ao trabalho. Ela deu um sorriso. Ela era assim, ainda conseguia sorrir, apesar de tudo.

Eu não conheci pessoa tão séria profissionalmente como Dona Josilda neste mercado de comunicação por onde passei, isso inclui algumas cidades que trabalhei pelo Brasil. Alguns chegaram perto dela, mas igual nunca vi. A palavra dela tinha peso e valia como contrato, muitas pessoas confundiam (até eu no começo confundi) dureza na forma de agir com seriedade. Ela era assim, uma profissional séria.

Uma vez ouvi do professor Alberico (amigo dela e editor do Guessa Errante, um suplemento criado por ela) um comentário que mostra bem o estilo Josilda: “ela me fez olhar o livro do poeta para confirmar realmente a forma como estava sendo escrito o texto no Guessa, se a palavra estava no sentido correto, pois caso contrário, o autor poderia ficar chateado”. Ela era assim, detalhista e respeitava o trabalho dos outros profissionais.

Eu achava engraçado quando estava na sala dela e alguém dava uma informação para Dona Josilda. Como ela tinha uma memória maravilhosa para algumas informações e tinha certeza que estava certa, aí vinham as perguntas. Onde está escrito? Cadê o extrato bancário? Mostra o recibo para confirmar. Era ela assim, sabia de tudo.

Todo o processo que envolvia um cliente, ela dava conta de saber de tudo e pasmem alguns empresários, em tudo era emitido nota fiscal, nenhuma vez ela deixou de emitir para mim notas, para os meus clientes e, acima de tudo, recolhendo impostos, coisa rara no meio profissional. Não tinha o famoso “esquema” com Dona Josilda, era tudo preto no branco. Ela era assim, nada de jeitinho brasileiro.

Minha última conversa ao telefone com Dona Josilda não podia ser diferente, foi ela me dando bronca. Pensa que fiquei chateado de ter sido assim nosso último encontro? Nunca. Foi a nossa marca. Mas nossas brigas eram profissionais para dar o melhor ao Jornal Pequeno. Ela cobrava, pois sabia das diversas famílias que estavam por trás do JP. Ela era assim, cobrava, mas se preocupava com todos.

Quando cheguei ao velório é que a ficha realmente caiu (sou do tempo que o repórter tinha que sair à rua levando papel, caneta bic e uma ficha para usar o orelhão), por isso os créditos não caíram, foi ficha mesmo que caiu que ela havia morrido.

Eu fiquei tipo uma criança perdida na multidão sem saber onde está sua mãe no velório. Neste momento que escrevo, começo a me emocionar e nem sei se vou conseguir terminar esse texto, mas eu me senti perdido e perguntava para algumas pessoas: – quem vai puxar minha orelha agora? Quando entro na sala do velório e vejo o caixão fechado, eu vi que ela tinha aprontado comigo. Eu não poderia dar meu último beijo em suas mãos que era uma das formas que eu a cumprimentava. Até a sua saída de cena do mundo, ela fez do jeito dela, discreto, simples e na dela. Todos vão ter que lembrá-la viva. Ela era assim, discreta e sem estrelismo.

Chamá-la de guerreira não é justo, este adjetivo foi popularizado no país e se tornou ferramenta de marketing político. Ela era muita mais que isso, foi mulher brava, valente, um exemplo de trabalhadora que conhecia cada centímetro do jornal e que deixou sua digital marcada nas máquinas e em todos os lugares do prédio do Jornal Pequeno.

No dia de sua morte, procurei nos sites chamados bem informados aqui do Maranhão e não vi nenhuma nota sobre a morte de Dona Josilda, exceto, é claro, no site do Jornal Pequeno. Eu entendi o motivo, alguns profissionais que trabalham nestes sites, não conseguem olhar uma boa notícia e a importância desta profissional ao mercado da comunicação, além das mesmices que acontecem no dia a dia. Basta fazer um exercício rápido e pensar quantos jornais já passaram pela cidade e quantos estão. Ela era ou não importante neste mercado?

Talvez muitos dos que escrevem nestes sites, se lerem este texto (que acho difícil) não vão entender nada, pois seriedade, hombridade, caráter, respeito, palavra empenhada são coisas que não fazem parte do mundo de muitos “profissionais” desse mercado de trabalho, para eles pessoas como Dona Josilda nem existe, é algo surreal.

Não sei como é feita a escolha de Deus para quem vai ficar vivo e quem vai morrer, não quero discutir isso com Ele agora. Qual critério para levar a vida de alguém que ainda tinha muito a dar? Por que tão cedo, Dona Josilda ainda tão jovem e tão brava teve que ir para perto do Senhor? Mostre-me sua calculadora, pois quero saber como é feito este cálculo. Não estou entrando no mérito religioso da questão, mas pensando bem, ela poderia ter ficado mais tempo entre nós.

Muitos me perguntavam como iria ficar o Jornal Pequeno sem Dona Josilda, pois ela realmente era uma parte importante na engrenagem do Grande Pequeno. Muralha, base, apoio, sustentáculo e segurança. São muitos os adjetivos sobre a importância dela no JP.

Mas, me perdoem todos da família Bogéa, o Jornal Pequeno não pertence mais a vocês há muito tempo. O Jornal é do povo do Maranhão, vocês são administradores do processo, no Jornal quem manda é aquele homem sentado na praça e que espera ler toda manhã alguma informação verdadeira, da pessoa chique que quer saber da fofoca da festa que ela participou ou daquele jovem que já aprendeu a ler o JP on-line para saber das coisas que acontecem no Maranhão.

Dona Josilda vai fazer muita falta ao JP, como faz falta Zé Pequeno, Ribamar Bogéa, fundador do Jornal Pequeno, assim como farão falta Lourival, Dona Hilda, Gutinho, Ribinha, Luís Antonio e todos da família Bogéa.

Eu com 4 anos não passei nada perto do que muitos que trabalham lá há anos já passaram, mas sei das diversas dificuldades pelas quais o Jornal Pequeno passou. Mas foi vivendo um dia de cada vez e já está quase sessentão, ou seja, sobreviveu.

(Obs.: este ano, o JP completará 70 anos).

O time daqui de baixo perdeu uma grande jogadora: Josilda Bogéa Anchieta, o Jornal perdeu o Romário do Lourival e Luís Antonio, o Ronaldinho Gaúcho do Gutemberg. Perdeu uma jogadora importante no meio-campo, que distribuía as jogadas, colocava os jogadores na cara do gol, voltava pra marcar e proteger os zagueiros, não marcava muitos gols, mas fez bastantes artilheiros. O time aqui de baixo fica mais fraco, isso é verdade.

Mas, quando me perguntarem outra vez como vai ficar o JP, eu já tenho a resposta. O time aqui de baixo ficou mais fraco, como o cartunista Caju descreveu na quinta-feira, o time lá de cima está forte. Como se não bastassem as paródias que Zé Pequeno deve estar fazendo para Deus e todos os Santos, agora chegou Dona Josilda, para cobrar mais justiça, equilíbrio e proteção para todos nós que fazemos o Jornal Pequeno.

E para terminar queria declarar uma coisa: – eu não sabia que gostava tanto da senhora, Dona Josilda e peço um favor, pede para Deus arrumar alguém para puxar minha orelha no Jornal, mas não precisa ser muito forte, pois eu aprendi e mudei bastante com a senhora.

A senhora deixou um exemplo da nossa brava gente brasileira que, apesar de tudo, não desistiu nenhum instante e este legado vai ficar para todos nós. Não vá com Deus, a senhora já está com Deus. Um beijo em suas mãos.

 

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“Ela me fez olhar o livro do poeta para confirmar realmente a forma como estava sendo escrito o texto no Guessa, se a palavra estava no sentido correto, pois caso contrário, o autor poderia ficar chateado”

Alberico Carneiro

Momentos especiais