SEU MANOEL
DO LUSITANA

In memoriam: eu tive uma
experiência profissional com ele

Publicado no Jornal Pequeno no dia 14 de agosto de 2009

Nesta semana, o Maranhão perdeu Manoel Alves Ferreira, o Seu Manoel do Lusitana. Contar a história do homem e do empresário para quê, se todos já conhecem? Ele deixou construído, em diversas pessoas, situações inesquecíveis e cada um soube, ou não, tirar o melhor destas experiências. Por isso não vou falar de números e de prédios construídos por ele, vou falar das minhas, não das pessoas que viveram o mesmo momento e tiveram as suas experiências com ele naquela época, mas as que me enriquecem até hoje como exemplos para vida.

Dia 11 de agosto, 10h30 da manhã, acabo de assistir a cerimônia de corpo presente no velório do Seu Manoel. Dou um abraço forte no deputado Afonso Manoel e falo para ele que nosso amigo se foi e Afonso diz: “ele gostava muito de você”, e eu dele.

Acaba de fechar o ciclo da história viva de um imigrante português, como muitos outros que chegaram ao Brasil, e fica para o mundo uma história de vida, deste empresário que transformou uma mercearia num dos maiores grupos de varejo do Brasil.

Eu já conhecia Afonso Manoel que no escritório central do Grupo sentava ao lado do Seu Manoel. Um dia, falei para mim mesmo que iria pular para mesa ao lado e negociar com ele. Pular de uma mesa para outra não demorou muito. Fui trabalhar para uma agência de publicidade e resolvi conquistar alguma conta do Grupo Lusitana. Muitos diziam impossível ele fazer algum trabalho comigo: “ele não muda e que não aceita inovações”, porém eu via nos olhos do Seu Manoel algo diferente do que falavam e aprendi logo uma coisa com ele: um empresário precisa dar resultados e o que for melhor para as empresas, ele precisa mudar. Comecei com alguns trabalhos para o Garden Shop, uma loja do estilo, hoje O Louvre. A agência fez uma campanha modesta de dia das mães para a loja.

Um dia comecei a perceber que as coisas estavam mudando para mim em relação a ele. Quando precisava falar com Seu Manoel, esperava muito na sala de espera e de uns tempos para cá o meu acesso à sua sala ficou mais fácil e rápido. Nestes dias de longa espera, aconteceu algo que marcou muito minha vida. Um dia, eu me diverti demais, ri na época, mas só alguns anos depois eu entendi o gesto. Ele abre a porta com uma caneta bic vazia na mão e fala para sua secretária: “vai ao depósito, leve esta caneta vazia e traga uma nova”. Na hora eu pensei: “que homem pão duro!”, mas hoje eu entendo tudo. Ele sabia o verdadeiro valor de cada coisa e isso um empresário tem que saber.

Um dia, eu recebo um telefonema dele marcando uma reunião comigo. No horário, eu estava lá. A porta abre, ele me chama e quando entro, vários profissionais do Lusitana estavam sentados para a reunião. Eu me tremi todo e fiquei pensando o que eu tinha aprontado. E eu aprendo outra lição: ele queria mudar o visual dos cartazes de preços do Lusitana, ou seja, quem olhava para ele nem imaginaria que o detalhe visual dos cartazes de preços do supermercado era algo importante. Ele não parava nunca e se preocupava com os detalhes.

Trabalhando para agência, participamos de uma concorrência de um consórcio entre dois grandes amigos e empresários, Carlos Gaspar da Auvepar e Manoel Ferreira do Lusitana. Montei a estratégia de marketing que defendia a ideia de não levar o nome das empresas e, sim, a assinatura da credibilidade delas. Nossa proposta ganhou e foi criado o consórcio União das empresas Auvepar e Lusitana. Outra lição que aprendi com ele: apesar da pouca idade que eu tinha em relação à dele, ele ouviu e aceitou que a agência detentora da conta da Auvepar fizesse a campanha. Humildade para reconhecer que a outra, naquele momento, foi a melhor.

A partir desse ponto, eu havia conquistado o respeito do Seu Manoel e a amizade dele. Tinha aprendido a lidar melhor com ele, peguei a mania das canetas futuras coloridas na mesa, pois, para quem não sabe, ele adorava trabalhar com canetas das cores: verde, vermelha e preta na mesa para fazer suas marcações. Nossa sintonia era boa. Então, surgiu uma viagem para o Rio e o início da um novo trabalho de implantação de uma comunicação de mídia do Lusitana cujo projeto só eu e ele sabíamos de verdade. Não tinha cargo e nem salário, ganharia um percentual no resultado: para mim, era o máximo ser sócio do Seu Manoel, mas o melhor é me sentir perto dele, aprendendo e dando palpite em tudo.

Já trabalhando com ele, fomos viajar para um encontro de supermercadistas no Rio de Janeiro. Minha família morava na cidade e resolvi ficar hospedado na casa de minha mãe. Pela manhã, fui para o Hotel Othon tomar café com ele. Na mesa, ele comentava a importância deste evento e das palestras que eu assistiria. Naquela época que não lembro bem o ano, mas talvez final dos 90, o Grupo Lusitana figurava entre os maiores do país. Ele me deu mais uma experiência tomando café: “vamos pegar o ônibus do evento que passa aqui na porta e vai nos levar direto”. Eu já sabia que algumas pessoas da área com muito menos dinheiro que ele, alugavam carros, e até com motorista, para mostrar certo poder. Ele com todo seu poder e prestígio que tinha esperava calmamente uma carona de ônibus para o evento. Assisti a um dos maiores eventos da minha vida e ao lado de um dos maiores empresários do Brasil. Uma das palestras foi sobre a importância do marketing e da comunicação na empresa. O quanto a figura de um homem de marketing é fundamental e o empresário que estiver ao lado de um homem deste é moderno. Ao final da palestra ele me chama e me dá um abraço orgulhoso e diz assim: “você viu o que o palestrante falou sobre o homem de marketing?”, e eu entendendo sua pergunta dei um sorriso como quem diz: o senhor ao meu lado mostra que enxerga o futuro, não é verdade? Detalhe, o marketing no Brasil não era tão em moda quanto é hoje e, no Maranhão, ninguém pensava ainda. Outra lição: ele enxergava fácil o futuro.

Retornamos e comecei a trabalhar no nosso projeto. Montar out-door no ponto de vendas e nos terrenos do grupo, manter contato com representantes de empresas, criar informativos de vendas e toda uma comunicação de marketing para os pontos de vendas da rede. Mas a vida e o tempo não são como queremos e, sim como Deus quer, e isso só entendi mais tarde. Brigamos, discutimos, pois alguém não ficou satisfeito com o quanto eu ganharia e fiquei sem entender nada. Acabamos nossa parceria, nos afastamos e aquela relação que começava a ficar forte foi se apagando. Mudei minha vida, bati cabeça, perdi negócios. O Lusitana seguiu o caminho dele, existiram mudanças no mercado e, de longe, eu olhava as coisas acontecendo. E não entendia ainda o motivo daquela experiência de estar tão próximo a um dos maiores empresários que conheci e, de repente, tudo acabar.

Os anos se passaram e um dia eu fui ao escritório dele já no São Francisco para alugar o estacionamento do Lusitana Shopping para fazer um evento. Eu bem menos arrogante, já tinha perdido meu orgulho e a pretensão de achar que sabia muito. Já tinha descoberto que tinha um transtorno e me cuidava, apesar de ainda ter algumas crises depressivas e de hiperatividade que destruíram a minha vida e, enfim, hoje terminaram de vez. Encontrei-o na porta e ele me deu uma olhada e um sorriso. Fomos andando até a sua sala, parecia um labirinto entre corredores e portas. Uma sala menor, bem mais simples da última que frequentava no Centro Administrativo do Lusitana, mas o sorriso e a energia eram os mesmos. Depois de conversar como se nada tivesse acontecido no passado, ele olha para mim e diz assim: “você não é o Luiz que trabalhou comigo?”, e deu um sorriso. Não aluguei o estacionamento, nunca mais nos falamos e a última vez que vi seu Manoel foi na Avenida Ferreira Gullar, dirigindo seu carro, olhando fixamente para frente, dei um adeus com a mão, mas ele não me viu.

Não sou do tipo que acha que as pessoas não tiveram defeitos, quando vivas, porque morreram. Claro, para ser um empresário vitorioso ele teve que mandar pessoas embora. Terminar contratos com fornecedores, acabar com lojas que não eram produtivas e até ser injusto algumas vezes. Nem Jesus conseguiu a aceitação de todos. Uma frase tão comum e que muitas vezes é usada pelos fracos para justificar suas fraquezas, o que não era e nunca foi o caso do Seu Manoel e mostra o quanto ser um vencedor é difícil: Seu Manoel foi um trabalhador, um gerador de empregos, um homem de marketing que transformou o ato das compras mensais em fazer um Lusitana. Um visionário e um apaixonado pelo Brasil.

Um homem simples que nunca foi mordido pela mosca azul e conseguiu passar isso para suas gerações. Quantos no Brasil, aqui mesmo no Maranhão ou em São Luís, podem ter uma história como desse imigrante que construiu um império do bem numa época que não se tinha a facilidade de hoje. Seu Manoel deixou uma história linda que ninguém poderá destruir, pois terá sempre um amigo, como eu, pronto para passar a outras gerações os seus feitos.

Com diz o fado a Prece, cantada pela Amália Rodriguez, seu Manoel talvez tenha morrido na praia, não em Portugal, mas na terra que amou e em que fez uma história que ficará viva sempre.

 

Prece

Letra e música: Alain Oulman/

Pedro Homem de Melo
Talvez que eu morra na praia
Cercada em pérfido banho
Por toda a espuma da praia
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho.

Talvez que eu morra na rua
E dê por mim de repente
Em noite fria e sem luar
E mando as pedras da rua
Pisadas por toda a gente.

Talvez que eu morra entre grades
No meio de uma prisão
Porque o mundo além das grades
Venha esquecer as saudades
Que roem meu coração.

Talvez que eu morra de noite
Onde a morte é natural
As mãos em cruz sobre o peito
Das mãos de Deus tudo aceito
Mas que eu morra em Portugal.

 

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"Acaba de fechar o ciclo da história viva de um imigrante português, como muitos outros que chegaram ao Brasil, e fica para o mundo uma história de vida, deste empresário que transformou uma mercearia num dos maiores grupos de varejo do Brasil."

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